O Tancão



Depois de resolver velhas questões ambientais de poluição visual (desde as velhas pichações até os letreiros eletrônicos que insistiam em sobreviver nas periferias), a prefeitura se mobiliza para enfrentar um problema que se arrasta no tempo e alcança hoje em dia proporções alarmantes: o que fazer com as obras de arte que entopem prédios públicos, instituições, fundações, escolas, museus, praças, calçadasem suma, que proliferaram por toda a cidade. Sabe-se que foi perdido o controle sobre o armazenamento desses objetos (com certeza, pelo pudor de descartá-los na devida ocasião, como alertavam os ecologistas), e foi necessária a pressão da sociedade para que os governantes tomassem essa providência radical e um tanto bizarra.
"Conforme lei municipal sancionada em 1/4/2023, o prefeito hoje inaugura o Aterro Terminal de Obras de Arte, o chamado Tancão, um enorme buraco quadrado de cem metros de largura por trinta de profundidade (com um volume, portanto, de 300.000 m³), onde será despejado toda espécie de entulho artístico que esteja atrapalhando ou pondo em risco a comunidade. Inicialmente serão socorridos os museus, onde o problema atingiu o paroxismo, com freqüentes casos de perigosos desabamentos e proliferação de ratos e cupins, razão pela qual têm sido tantas vezes interditados pela vigilância sanitária. Em seguida se fará uma varredura nos locais públicos, atendendo assim às reivindicações contínuas da população. Na última etapa, o Tancão estará disponível para os particulares até a sua lotação. Pretende-se completar a limpeza, em todas as instâncias, dentro do prazo, negociado com o Ministério Público, de dois anos. Parte do projeto foi financiada pelo governo federal (que espera levar essa experiência para todas as capitais), que, em contrapartida, cobrará aos artistas plásticos dos mais variados segmentos, conforme o decreto, o imposto de três por cento sobre o valor da obra comercializada, destinado à manutenção da operação e construção de futuros tancões."
Caminhões chegavam ao local carregados de tranqueiras: ferros retorcidos, tubos plásticos, latas, mármores, panos, telas, troncos, chapas metálicas, fibras de vidro, madeiras, caixas, cordas, feltros, e restos de objetos feito lâmpadas, relógios, motores, monitores de TV... e inúmeras estátuas que nem antiquários aceitam; além de um enorme volume de substâncias naturais ou industrializadas, como areia, breu, caco de vidro, parafina, sal, celulose, vaselina, pigmentos...  A relação correta seria extensa e cansativa, esses exemplos servem apenas para dar noção da alquimia do que foi despejado dia a dia no Tancão. E o tamanho da empreitada: durante o primeiro mês, mais de um quilômetro de caminhões estendia-se pela estrada à espera do descarrego (foi necessária uma centena de viagens apenas para enviar os 2.873 bustos com seus exuberantes pedestais descartados pela Secretaria do Patrimônio Público). Um funcionário ajudava a manobra do guindaste que içava e despejava a caçamba de cada veículo no centro do buraco. Não deixava de ser interessante o espetáculo visual e sonoro da queda daqueles destroços pesados no vazio do fosso, e a nuvem de poeira escura que subia, e o volume caótico que aos poucos ali se formava. Entretanto, sem romantismo algum, o tóxico emergente impregnava-se em tudo ao redor, dando um tom lúgubre e pouco salubre ao terreiro.
Esse funcionário citado é o personagem dessa história. Além de administrar as entradas dos caminhões, era o vigia do Tancão. Para tanto, ganhava o salário mínimo e a posse provisória de um barraco erguido num dos cantos do terreno. Fora contemplado por um projeto da prefeitura de reintegração social de deficientes físicos – Fenizaldo sofrera queimaduras gravíssimas num incêndio ocorrido na loja de tintas onde trabalhava, no qual safou-se milagrosamente apenas com a vida e o corpo deformado. Os motoristas apelidaram-no Cinza, porque, além de queimado, era negro e vivia coberto de . Rapaz calado, cumpria sua tarefa com determinação e certo entusiasmo. Gostava de averiguar antecipadamente o que era trazido nos caminhões, em busca de obras com que pudesse enfeitar o entorno do seu barraco. Apreciava especialmente pequenos mármores ou bronzes femininos que porventura tivessem resistido intatos ao transporte; quando os encontrava, pedia ajuda para carregá-los, no que raramente era atendido por aqueles homens brutos. Também colecionava quadros que segundo ele não justificavam o descarte ( se considerava um entendido no assunto); se paredes tivesse, faria uma galeria em seu minúsculo quarto. Esses objetos eram a única companhia daquele ser soturno, de resto muito afins com a desolação do lugar, sobretudo quando subia a noite. Nessa hora, passava o tempo caminhando ao redor do poço, analisando níveis de ocupação e limpando as beiras das rebarbas que sobravam.
(Não podia ter mulher, nem sequer prostituta – e sabia que nunca haveria de ser diferente. Sentia tanta vergonha de si que jamais, desde o acidente, olhara-se no espelho. Caso, por descuido, deparasse-se com seu reflexo (numa poça d'água, metal reluzente ou fragmento de vidro) e entrevisse num átimo a própria figura, o dia para Fenizaldo estava encerrado. E evitava a todo custo ser visto por qualquer mulher, razão maior de ter aceito esse emprego entre homens. Não saía do sítio; suas compras eram trazidas por familiares, em especial sua mãe que o visitava regularmente. Aliás, ele se permitia encontrar apenas com essa mulher.)
Como era de se esperar, o fluxo de caminhões diminuiu com o tempo, resumindo-se, ao cabo de ano, a uma entrega diária realizada ao final da tarde, a cargo do próprio manobrista do guindaste que acumulara as duas funções. De fato o Tancão estava lotado ou bem mais que isso, elevava-se acima da superfície um monte com outros trinta metros, e razoavelmente denso, uma vez que os manobristas foram hábeis no encaixe dos escombros. Restava ainda o problema do escoamento, o sistema de drenagem não funcionava a contento – a vala vivia cheia de água. Os engenheiros, diante da impossibilidade de remover o lixo, improvisaram um encanamento próximo à superfície que serviu de ladrão, escoando a água excedente a um terreno contíguo, evitando assim ao menos as constantes inundações que assolavam o entorno, incluindo o barraco do nosso personagem agora promovido a síndico. Pois essa foi a última atuação das autoridades no local. O guindaste foi levado embora e o Tancão permaneceu oficialmente desativado.
– Boa sorte, Cinza.
Adeus.
– A prefeitura deixou você ficar aqui?
– Deixou.
– Vai pagar?
 – Vai.                                 
– O Tancão está lotado...
– Lotou.
Nemmais o que trazer. Você passa buzinando pelas casas, escolas, museus – e nada. Sempre têm os desentendidos que tentam se desfazer de móveis, pneus, computadoresnão dá! Não pode! E agora o pessoal do teatro e do carnaval pressiona a prefeitura para autorizar o despejo de cenários e figurinos. Não pode! Arte é arte!
– É.

Fenizaldo ficou sozinho. Acontece que amava aquele ermo preto e quieto. Girava em torno do monte e o achava cada dia mais lindo. Escalava aquilo muitas vezesera um perigo: queda ali seria fatal, não pelas arestas afiadas, como também pelo fato de que ninguém viria em socorro caso se entalasse numa concavidade qualquer. E cair era fácil, que tudo era liso e íngreme. Mesmo assim subia com grande destreza, em cima havia uma vista esplendorosa. Via o perfil da cidade, o aeroporto, a enorme represa e a silhueta da serra — eram os quatro pontos cardeais. Cuidava do negócio com carinho; à medida de sua força, rearranjava um fragmento aqui, encaixava outro ali, criava degraus, parapeitos, dava forma a figuras que despontavam conforme o ângulo, lavava alguma superfície para que recuperasse a cor, e assim tinha sempre o que fazer. Certo dia teve um insight: amarrou uma a uma suas obras particulares na cintura, carregou-as com enorme esforço até o topo e de as fez despencar aleatoriamente. Sentiu-se aliviado, como quem tivesse dado a César o que é de César.
Sabia conviver com os raios, sobretudo no verão; qualquer tempestade e se iniciava ali um festival de fogos de artifícios, atraídos que eram pela altura e o acúmulo de metal. Mas, antes de prejudicarem, ajudavam e ainda ajudam à obra sobremaneira. Sem eles, a estrutura não teria adquirido tal acabamento, soldada em vários pontos e como que homogeneizada num todo: o monte das coisas. Mas os raios não transformaram aquilo numa massa compacta, não; isso acabaria com a leveza da peça. Os vãos são fundamentais; através deles se entra e sai, vê-se o céu do outro lado, escuta-se o vento assobiar, os passarinhos se acolhem e as sombras desenham formas surpreendentes. E –isso é um luxo – o monumento ergue-se imenso sobre um espelho d'água! (Que ele não olha diretamente, somente de viés.) Foi transferir o barraco mais pra trás e esperar a temporada de chuvas, para dali assistir à luz incandescente dos raios queimando e iluminando aquela pele dura, e sentir no coração o estouro dos trovões, como quem recebesse de Deus o que é de Deus.





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