O Tancão
"Conforme lei municipal sancionada em 1/4/2023, o prefeito hoje inaugura o Aterro Terminal de Obras de Arte , o chamado Tancão, um enorme buraco quadrado de cem metros de largura por trinta de profundidade (com um volume , portanto , de 300.000 m³ ), onde será despejado toda espécie de entulho artístico que esteja atrapalhando ou pondo em risco a comunidade . Inicialmente serão socorridos os museus , onde o problema atingiu o paroxismo , com freqüentes casos de perigosos desabamentos e proliferação de ratos e cupins , razão pela qual têm sido tantas vezes interditados pela vigilância sanitária . Em seguida se fará uma varredura nos locais públicos , atendendo assim às reivindicações contínuas da população . Na última etapa , o Tancão estará disponível para os particulares até a sua lotação . Pretende-se completar a limpeza , em todas as instâncias , dentro do prazo , negociado com o Ministério Público , de dois anos . Parte do projeto foi financiada pelo governo federal (que espera levar essa experiência para todas as capitais ), que , em contrapartida , cobrará aos artistas plásticos dos mais variados segmentos , conforme o decreto , o imposto de três por cento sobre o valor da obra comercializada, destinado à manutenção da operação e construção de futuros tancões."
(Não podia ter mulher , nem sequer prostituta – e sabia que nunca haveria de ser diferente . Sentia tanta vergonha de si que jamais , desde o acidente , olhara-se no espelho . Caso , por descuido , deparasse-se com seu reflexo (numa poça d'água , metal reluzente ou fragmento de vidro ) e entrevisse num átimo a própria figura , o dia para Fenizaldo estava encerrado. E evitava a todo custo ser visto por qualquer mulher , razão maior de ter aceito esse emprego entre homens . Não saía do sítio ; suas compras eram trazidas por familiares , em especial sua mãe que o visitava regularmente . Aliás , ele se permitia encontrar apenas com essa mulher .)
– Boa sorte , Cinza .
– Adeus .
– A prefeitura deixou você ficar aqui ?
– Deixou.
– Vai pagar ?
– Vai.
– O Tancão está lotado...
– Lotou.
– Nem há mais o que trazer . Você passa buzinando pelas casas , escolas , museus – e nada . Sempre têm os desentendidos que tentam se desfazer de móveis , pneus , computadores – não dá! Não pode! E agora o pessoal do teatro e do carnaval pressiona a prefeitura para autorizar o despejo de cenários e figurinos . Não pode! Arte é arte !
– É.
Fenizaldo ficou sozinho . Acontece que amava aquele ermo preto e quieto . Girava em torno do monte e o achava cada dia mais lindo . Escalava aquilo muitas vezes – era um perigo : queda ali seria fatal , não só pelas arestas afiadas, como também pelo fato de que ninguém viria em socorro caso se entalasse numa concavidade qualquer . E cair era fácil , já que tudo era liso e íngreme . Mesmo assim subia com grande destreza , lá em cima havia uma vista esplendorosa . Via o perfil da cidade , o aeroporto , a enorme represa e a silhueta da serra — eram os quatro pontos cardeais . Cuidava do negócio com carinho ; à medida de sua força , rearranjava um fragmento aqui , encaixava outro ali , criava degraus , parapeitos , dava forma a figuras que despontavam conforme o ângulo , lavava alguma superfície para que recuperasse a cor , e assim tinha sempre o que fazer . Certo dia teve um insight: amarrou uma a uma suas obras particulares na cintura , carregou-as com enorme esforço até o topo e de lá as fez despencar aleatoriamente. Sentiu-se aliviado, como quem tivesse dado a César o que é de César.
Sabia conviver com os raios , sobretudo no verão ; qualquer tempestade e se iniciava ali um festival de fogos de artifícios , atraídos que eram pela altura e o acúmulo de metal . Mas , antes de prejudicarem, ajudavam e ainda ajudam à obra sobremaneira . Sem eles , a estrutura não teria adquirido tal acabamento, soldada em vários pontos e como que homogeneizada num todo : o monte das coisas . Mas os raios não transformaram aquilo numa massa compacta , não ; isso acabaria com a leveza da peça . Os vãos são fundamentais ; através deles se entra e sai, vê-se o céu do outro lado , escuta-se o vento assobiar , os passarinhos se acolhem e as sombras desenham formas surpreendentes . E –isso é um luxo – o monumento ergue-se imenso sobre um espelho d'água ! (Que ele não olha diretamente , somente de viés .) Foi só transferir o barraco mais pra trás e esperar a temporada de chuvas , para dali assistir à luz incandescente dos raios queimando e iluminando aquela pele dura , e sentir no coração o estouro dos trovões , como quem recebesse de Deus o que é de Deus .

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