– Seu pai morreu?
– Não . Me leva daqui pra qualquer lugar . Já te conto , aqui não . Que bom que você apareceu. Pega o menino e vai descendo. Pare o carro mais pra trás , tomara ninguém veja – é melhor .
“Eu não deveria contar pra ninguém nem você . Mas preciso de ajuda . Confio em você . Olhe : ontem à noite , era madrugada , eu estava no ponto . Um Corola parou com um negão enfezado que me mandou entrar sem perguntar nada . Desconfiei assim-assim, mas como sou boba , cê sabe, entrei, acho que por causa do carro , sei lá , acredito muito em Deus , tenho é fé . Fiz bem ? Deus é quem sabe. O cara partiu em velocidade , pegou a Francisco Morato, depois a estrada , disse pr’eu calar a boca , que se me comportasse daria tudo certo , eu pensei to fodida, mas cê sabe como sou, fiquei na minha , eu não sinto medo , só lembrava do meu filho . Vi que ele não iria parar em motel nem lugar nenhum , dirigia a duzentos por hora , nunca vi, rezava muito , levava Deus comigo . Tentei umas três perguntas , recebi uns três calabocas, e já passávamos de Registro . Ia me levar prum sítio , seria enrabada por um monte , eu achava, talvez de vingança mas então teria pego pessoa errada, não tenho inimigo nenhum , com certeza . E aquele carro ? O cara não era ladrão pequeno , talvez quisesse companhia pra não dormir , fosse vender o carro em Curitiba, podia ser . Depois de umas três horas , virou gente de repente , pelo menos na necessidade : encostou o carro no acostamento , tirou a pica fora , me pôs pra chupar e gozou na hora . Como agradecimento, recebi a mesma satisfação : se comporta que tudo dará certo . Seguimos voando.
‘Olha , chegou que tive sono , não sou de ficar encanando. Nem foi o meu primeiro sequestro. Cê sabe que saí da minha terra fugida com um motorista desconhecido . Quem tem Deus não tem medo . O cara estava apavorado , tínhamos passado era muito Curitiba, acho que cochilei. Blumenau, Itajaí, foi por ali ; parou num posto de gasolina , um carro esperava. Desceram quatro . O chefe era um japonês . Saiu já xingando o meu negão de burro , idiota e muitos nomes , aquele tampinha punha aquele macho com o rabo entre as pernas , xingava porque , imagine, o imbecil tinha catado negra errada. Eu sei quem seria: a Delma, que também faz ponto ali , sabe? Eu acho que não tem nada a ver , mas muita gente confunde. Estava explicado. Então , e agora ? Vamos fazer o arranjo com ela ... – falou um gordo . O japonês estava inconformado, falava, repetia, berrava, que era a outra , que a Delma sabia das coisas , era de confiança , agora tinha de me envolver , e as consequências? Eu só sacando. Pensei comigo : ou entro numas ou eles ficam sem saída e adeus comigo . Sou boba ! Falei pro japa que eu não era tão santa não , qual fosse a bronca estava lá pra ajudar , na boa, fosse sexo , fosse assalto , qualquer coisa . Depois de muito agá na sua orelha , convenci o homem que então me instruiu: que parariam no acostamento ali logo adiante na mesma 101, era pr’eu subir até um barraco vazio no morro , deixar lá dentro uma tal pasta , pegar outra e trazer o trem . Quer dizer : levar a droga , pegar a grana e descer – em outras palavras . Pra evitar emboscada , mandavam uma puta inocente . Que eu tinha dois minutos . Levasse a lanterna , a porta era pra estar só encostada. Que fosse sossegada que o procedimento era de rotina . E que me sobraria um troco . Fomos.
‘O primeiro carro parou tipo aqui , o do japonês mais distante , e aí eu vi que tinha outro ainda na cobertura , do outro lado . Desci, e um zarolho repetiu dois minutos . Subir todo aquele breu cheio de diabo solto era fácil comparado com meu cagaço futuro , que era que eu não era a Delma e não iria sair dali sem mais aquela, conhecendo o esquema dos homens . Nisso eu pensava mas não tinha tempo , era subir e descer , Deus que me ajudasse e graças a Deus entrei, troquei as malas e voltei sem tropeços , quando , chegando embaixo , até já vendo o bando recostado nos carros , pronto ; o que eu vejo: a polícia chega não sei de onde e cerca , três carros de um lado , três do outro . O carinha chamado Alemão que estava mais perto da trilha , no meu aguardo , foi o primeiro e o negão também nem entrou no carro , caiu na porta . O japonês , no carro da frente com mais dois , saiu voando, disparando metralhadora . A gente da cobertura não cobriu nada , partiu fugido em direção contrária . Eu escondida, bem dentro do capim , só assistindo. Já tinha jogado a mala pra longe . A polícia se dividiu pra cima e pra baixo da estrada ; ficaram dois carros , os tiras desceram armadíssimos, conferiram os mortos , subiram até o casebre daquele jeito treinado , olhando de um lado , de outro , uns de costas , os da frente agachados, passaram a dois palmos do meu nariz e não me viram, claro ; foi só eu fechar os olhos , apagar meus dois vagalumes, no resto eu era uma noite sem lua . Me entregar eu não era besta , explicar o inexplicável pro sargento , depois pro delegado , depois pro promotor , depois pro juiz , eu só iria apanhar muito e passar a vida da cadeia . E perder o dinheiro , evidente , mas disso ainda não tinha ideia.
‘Fui tratando de sair dali devagarinho, pelo mato , ah, antes catei de novo a mala , apareci bem adiante , atravessei a 101, segui andando, ao contrário , direção São Paulo. Foi aí que matei a curiosidade , com o meu isqueiro ; abri a pasta e nunca vi, coalhada de notas . Fechei no ato – então atordoei. Estava no mundo sozinha , uma negra numa escuridão , com uma mala velha cheia de dólares. E olha : não devo nada a ninguém . Só devo pro meu filho . Porra , gato , não sou de ter dúvida não . Entregar pra polícia ? Ali , de longe , assisti direitinho ainda a chegada de mais carros com sirene em cima . Era tarde , meu , esta grana por Deus era minha . Conforme passava qualquer veículo na estrada , eu entrava no descampado , amoitava, depois continuava minha fuga , na boa. A primeira coisa que precisava resolver era como disfarçar aquela pasta . Veja: não era dessas modernas, executiva , não ; era uma maleta surrada que eles usam pra não chamar a atenção . Mas o que uma puta como eu estaria fazendo andando com uma pasta velha ? E tinha outra preocupação : e pra pegar um ônibus , só com trinta reais no bolso ? Ia assim cogitando, cismando, vendo que a noite já estava pra acabar e a negra pra aparecer . Tudo isso enquanto a polícia subia e descia.
‘Andei bem , consegui num beco de comércio escuro um bom saco de lixo , joguei umas tralhas e a grana toda dentro , virou uma trouxa de quem está mudando, indo embora – descartei a mala no mato . Tinha um posto adiante , consegui uma carona , o gaúcho nem quis muita coisa e me deixou no Rodoanel com a Corifeu . De lá vim de táxi direto pra casa pegar meu filho que , coitado , estava sozinho , pra sair voando sem saber pra onde , e ainda não sei. Então você apareceu. Meu anjo . Olha , não contei ainda , mas tem grana pra burro .”
– A grana é limpa . Com isto que eu trouxe dá pra você se arrumar por um tempo . Não vai ser fácil , você trocando dólares por aí todos os meses... Vai ter de usar outras roupas , mudar essa cara de puta e usar a cabeça – que , aliás , você tem de sobra .
– Cara de puta não dá pra mudar .
– Dá, sim . Você é inteligente , vai saber o que fazer . O negócio não tá na cara , é claro , mas na forma de se vestir e um pouco nesse cabelo . Não basta você pôr um jeans e um lenço na cabeça , você tem que se vestir muito bem , passar por mulher de artista , ou modelo , ou puta de boate fina , porque como mulher de família você não passa , só se começar a estudar ...
– Prefiro modelo ...
– Você não tá com essa bola toda ...
– Você é tão mau ...
– Pra mim você é linda , mas não dá pra isso . Com esse bundão você não cabe na passarela ... O que interessa é ser discreta .
– Vamos viver juntos . Você me ajuda . A gente reparte.
– To fora disso, não quero um tostão . Por mim , você entregaria isso tudo e ficava famosa , ao menos por um dia ...
– E voltava pra rua , e seria morta pelos caras ...
– Isso é verdade .
– Vou embora pra minha terra , me escondo lá nos fundos do meu sertão que nem os evangélicos conhecem...
– Não seja estúpida . Esta noite o japonês ou a polícia ou ambos vão passar pelo ponto e descobrir onde você mora . Vão fazer plantão lá no Rio Pequeno , investigar tudo . Depois , na semana que vem, já estarão em Caitité, e não será surpresa se eles torturarem ou matarem seus parentes – não vão admitir que ninguém saiba do seu paradeiro . E não caia na tentação de ligar pra lá . Durante uns dez anos , não entre em contato com sua família , e nunca mais apareça em São Paulo. É isso o que eu acho. É isso o que você aprontou.
– Eu não aprontei nada , gato , fizeram isso comigo , e agora se correr o bicho me pega , se ficar , me comem. Uma puta não pega barato uma mala de dinheiro não , na inocência . E se eu entrego pras autoridades , o bando e a polícia me caçam adiante , e aí então com que grana eu vou fugir ?
– Você está certa , mas no fundo está gostando da situação .
– Ei , professor ! meu filho vai estudar , é isso que importa. Queria que você viesse comigo , sempre não me disse que eu te trouxe a alegria de volta ...?
– Começa mal , me chamando. O primeiro homem que puser do teu lado vai te levar o dinheiro . Você precisa entender que perdeu a família , seus amigos , sua profissão e a perspectiva de qualquer amor ...
– Nunca tive muito nada disso, só minha mãe pode ser que perdi. No resto , puta não tem pai , amigo , marido , nada além de filho . Mas tem razão , gato , se homem nenhum nunca prestou, inda mais agora . Você é exceção , mas é de outro mundo . E tá me ajudando demais , se arriscou também , eu sei, que se esses dólares não valessem, te catavam lá no shopping... Pegue um tanto pra você , cê merece... Agora preciso decidir , pra onde eu vou? Talvez uma praia deserta ...
– Continua mal . Desse jeito você não dura . Onde iria trocar os dólares? Na padaria ? Lugar pequeno todo mundo sabe de tudo . Você tem de ir pra uma grande capital . Alugar um quarto modesto num lugar seguro , longe de cortiços . E trocar esses dólares muito aos poucos , o suficiente para viver . Deixe a escola boa do menino pra daqui uns anos . Se você fizer as coisas bem devagarinho, com a mesma paciência que tem comigo na cama , as coisas vão se encaixar , você vai aprender a viver outra vida , mas somente em silêncio ... na maior lentidão baiana ... Tem mais , querida : vai ter que inventar um personagem com um passado , seus amores , e a origem do seu dinheiro . Precisará ter respostas prontas pra enfrentar todas as situações , sobretudo aquelas que acontecem de repente , dentro de um elevador , por exemplo . E saber o que dirá pro seu filho , que ele vai crescer depressa . É muita coisa . Mas você é fantasiosa , será capaz de imaginar . A verdade é que o destino das ruas era pequeno pra você . Mas temo que este seja demasiado grande ...
– Eu sei o que vou fazer . Vou trabalhar de enfermeira , já fiz isso aqui , quando cheguei – mas não rendia. Agora não preciso mais de grana , mas de um ofício ...
– Isso sim , agora sim . Vou te levar a Campinas , de lá você escolhe uma capital ; não pode pegar ônibus aqui na rodoviária . Última coisa : não compre imóvel algum por muitos anos , que você vai se enrolar .
– Agora me veio uma coisa ... Você falou que os caras vão investigar no Rio Pequeno ... Podem chegar no seu carro ...
– Já pensei nisso, não tem problema . Um Fiat Uno , prata ... Por que alguém teria anotado a chapa ? Não pega nada , não .
– Você estava atrás de uma foda, e olhe o trabalho que dei.
– Eu me resolvo... Se você for prudente , nunca mais nos veremos. Só eu sei o que estou perdendo.
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