Negra Errada


Todo mês eu visitava a negra no bairro Rio Pequeno, São Paulo, um decoroso lar sobre um boteco indecente, onde ela admitia alguns fregueses de confiança. Esses encontros desencadeavam em mim elevadas doses de adrenalina porque, embora fosse íntimo de minha amiga, sempre sentia medo de parar o carro naquela periferia. Mal sabia que estava prestes a viver dessa vez uma aventura de verdade – ao menos para um professor careta como eu –, muito além da mera confrontação com as inibições congênitas. Era um começo de tarde quando a encontrei com o filho (que deveria estar na escola) arrumando as últimas peças das malas. Estava aflita a bela negra, que tinha por característica justamente a calma irresponsável dos baianos. Ao lado de umas poucas notas de cinquenta, um bilhete bem redigido: Dona Esmerinda, aqui o aluguel. Obrigada. Meu pai morreu, tive de partir com pressa.
Seu pai morreu?
Não. Me leva daqui pra qualquer lugar. te conto, aqui não. Que bom que você apareceu. Pega o menino e vai descendo. Pare o carro mais pra trás, tomara ninguém veja – é melhor.
Eu fiquei assustado. Logo partimos. Perguntei onde iríamos, respondeu que num motel qualquer, mas outro, não o nosso, um longe e desconhecidosomente então me contaria as coisas. Enquanto eu dirigia, apertava meu braço com força e dizia meu anjo, meu anjo. no motel, e com o filho distraído na televisão, começou o relato com seu jeito pausado de falar sorrindo, o que me parecia um desacerto entre forma e conteúdo:
Eu não deveria contar pra ninguém nem você. Mas preciso de ajuda. Confio em você. Olhe: ontem à noite, era madrugada, eu estava no ponto. Um Corola parou com um negão enfezado que me mandou entrar sem perguntar nada. Desconfiei assim-assim, mas como sou boba, sabe, entrei, acho que por causa do carro, sei , acredito muito em Deus, tenho é . Fiz bem? Deus é quem sabe. O cara partiu em velocidade, pegou a Francisco Morato, depois a estrada, disse pr’eu calar a boca, que se me comportasse daria tudo certo, eu pensei to fodida, mas sabe como sou, fiquei na minha, eu não sinto medo, lembrava do meu filho. Vi que ele não iria parar em motel nem lugar nenhum, dirigia a duzentos por hora, nunca vi, rezava muito, levava Deus comigo. Tentei umas três perguntas, recebi uns três calabocas, e passávamos de Registro. Ia me levar prum sítio, seria enrabada por um monte, eu achava, talvez de vingança mas então teria pego pessoa errada, não tenho inimigo nenhum, com certeza. E aquele carro? O cara não era ladrão pequeno, talvez quisesse companhia pra não dormir, fosse vender o carro em Curitiba, podia ser. Depois de umas três horas, virou gente de repente, pelo menos na necessidade: encostou o carro no acostamento, tirou a pica fora, me pôs pra chupar e gozou na hora. Como agradecimento, recebi a mesma satisfação: se comporta que tudo dará certo. Seguimos voando.
Olha, chegou que tive sono, não sou de ficar encanando. Nem foi o meu primeiro sequestro. sabe que saí da minha terra fugida com um motorista desconhecido. Quem tem Deus não tem medo. O cara estava apavorado, tínhamos passado era muito Curitiba, acho que cochilei. Blumenau, Itajaí, foi por ali; parou num posto de gasolina, um carro esperava. Desceram quatro. O chefe era um japonês. Saiu xingando o meu negão de burro, idiota e muitos nomes, aquele tampinha punha aquele macho com o rabo entre as pernas, xingava porque, imagine, o imbecil tinha catado negra errada. Eu sei quem seria: a Delma, que também faz ponto ali, sabe? Eu acho que não tem nada a ver, mas muita gente confunde. Estava explicado. Então, e agora? Vamos fazer o arranjo com ela... – falou um gordo. O japonês estava inconformado, falava, repetia, berrava, que era a outra, que a Delma sabia das coisas, era de confiança, agora tinha de me envolver, e as consequências? Eu sacando. Pensei comigo: ou entro numas ou eles ficam sem saída e adeus comigo. Sou boba! Falei pro japa que eu não era tão santa não, qual fosse a bronca estava pra ajudar, na boa, fosse sexo, fosse assalto, qualquer coisa. Depois de muito agá na sua orelha, convenci o homem que então me instruiu: que parariam no acostamento ali logo adiante na mesma 101, era pr’eu subir até um barraco vazio no morro, deixar dentro uma tal pasta, pegar outra e trazer o trem. Quer dizer: levar a droga, pegar a grana e descerem outras palavras. Pra evitar emboscada, mandavam uma puta inocente. Que eu tinha dois minutos. Levasse a lanterna, a porta era pra estar encostada. Que fosse sossegada que o procedimento era de rotina. E que me sobraria um troco. Fomos.
‘O primeiro carro parou tipo aqui, o do japonês mais distante, e eu vi que tinha outro ainda na cobertura, do outro lado. Desci, e um zarolho repetiu dois minutos. Subir todo aquele breu cheio de diabo solto era fácil comparado com meu cagaço futuro, que era que eu não era a Delma e não iria sair dali sem mais aquela, conhecendo o esquema dos homens. Nisso eu pensava mas não tinha tempo, era subir e descer, Deus que me ajudasse e graças a Deus entrei, troquei as malas e voltei sem tropeços, quando, chegando embaixo, até vendo o bando recostado nos carros, pronto; o que eu vejo: a polícia chega não sei de onde e cerca, três carros de um lado, três do outro. O carinha chamado Alemão que estava mais perto da trilha, no meu aguardo, foi o primeiro e o negão também nem entrou no carro, caiu na porta. O japonês, no carro da frente com mais dois, saiu voando, disparando metralhadora. A gente da cobertura não cobriu nada, partiu fugido em direção contrária. Eu escondida, bem dentro do capim, assistindo. tinha jogado a mala pra longe. A polícia se dividiu pra cima e pra baixo da estrada; ficaram dois carros, os tiras desceram armadíssimos, conferiram os mortos, subiram até o casebre daquele jeito treinado, olhando de um lado, de outro, uns de costas, os da frente agachados, passaram a dois palmos do meu nariz e não me viram, claro; foi eu fechar os olhos, apagar meus dois vagalumes, no resto eu era uma noite sem lua. Me entregar eu não era besta, explicar o inexplicável pro sargento, depois pro delegado, depois pro promotor, depois pro juiz, eu iria apanhar muito e passar a vida da cadeia. E perder o dinheiro, evidente, mas disso ainda não tinha ideia. 
‘Fui tratando de sair dali devagarinho, pelo mato, ah, antes catei de novo a mala, apareci bem adiante, atravessei a 101, segui andando, ao contrário, direção São Paulo. Foi que matei a curiosidade, com o meu isqueiro; abri a pasta e nunca vi, coalhada de notas. Fechei no atoentão atordoei. Estava no mundo sozinha, uma negra numa escuridão, com uma mala velha cheia de dólares. E olha: não devo nada a ninguém. devo pro meu filho. Porra, gato, não sou de ter dúvida não. Entregar pra polícia? Ali, de longe, assisti direitinho ainda a chegada de mais carros com sirene em cima. Era tarde, meu, esta grana por Deus era minha. Conforme passava qualquer veículo na estrada, eu entrava no descampado, amoitava, depois continuava minha fuga, na boa. A primeira coisa que precisava resolver era como disfarçar aquela pasta. Veja: não era dessas modernas, executiva, não; era uma maleta surrada que eles usam pra não chamar a atenção. Mas o que uma puta como eu estaria fazendo andando com uma pasta velha? E tinha outra preocupação: e pra pegar um ônibus, com trinta reais no bolso? Ia assim cogitando, cismando, vendo que a noite estava pra acabar e a negra pra aparecer. Tudo isso enquanto a polícia subia e descia.
‘Andei bem, consegui num beco de comércio escuro um bom saco de lixo, joguei umas tralhas e a grana toda dentro, virou uma trouxa de quem está mudando, indo embora – descartei a mala no mato. Tinha um posto adiante, consegui uma carona, o gaúcho nem quis muita coisa e me deixou no Rodoanel com a Corifeu. De vim de táxi direto pra casa pegar meu filho que, coitado, estava sozinho, pra sair voando sem saber pra onde, e ainda não sei. Então você apareceu. Meu anjo. Olha, não contei ainda, mas tem grana pra burro.”
Onde termina a sua aventura de ações concretas, começa a minha  aventura de verdade, da razão do intelecto. Havia mais de quatrocentos mil dólares, numa aferição superficial que fiz enquanto retirava de alguns pacotes uma nota a esmo, que me propus a trocar para certificar de que fossem verdadeiras. E também a minha negra precisava de algum para fugir, e eu não tinha nada para oferecer. Num shopping, com o coração na mão, troquei cem dólares. Como não houve problemas, passei quase três mil em outra casa de câmbio. Eram verdadeiros – eu é que me sentia falso em meio a aquele rolo de realidade. Voltei pro motel.
– A grana é limpa. Com isto que eu trouxe dá pra você se arrumar por um tempo. Não vai ser fácil, você trocando dólares por todos os meses... Vai ter de usar outras roupas, mudar essa cara de puta e usar a cabeçaque, aliás, você tem de sobra.
Cara de puta nãopra mudar.
– Dá, sim. Você é inteligente, vai saber o que fazer. O negócio não tá na cara, é claro, mas na forma de se vestir e um pouco nesse cabelo. Não basta você pôr um jeans e um lenço na cabeça, você tem que se vestir muito bem, passar por mulher de artista, ou modelo, ou puta de boate fina, porque como mulher de família você não passa, se começar a estudar...
– Prefiro modelo...
Você nãocom essa bola toda...
Você é tão mau...
Pra mim você é linda, mas nãopra isso. Com esse bundão você não cabe na passarela... O que interessa é ser discreta.
– Vamos viver juntos. Você me ajuda. A gente reparte.
– To fora disso, não quero um tostão. Por mim, você entregaria isso tudo e ficava famosa, ao menos por um dia...
– E voltava pra rua, e seria morta pelos caras...
Isso é verdade.
– Vou embora pra minha terra, me escondo nos fundos do meu sertão que nem os evangélicos conhecem...
Não seja estúpida. Esta noite o japonês ou a polícia ou ambos vão passar pelo ponto e descobrir onde você mora. Vão fazer plantão no Rio Pequeno, investigar tudo. Depois, na semana que vem, estarão em Caitité, e não será surpresa se eles torturarem ou matarem seus parentesnão vão admitir que ninguém saiba do seu paradeiro. E não caia na tentação de ligar pra . Durante uns dez anos, não entre em contato com sua família, e nunca mais apareça em São Paulo. É isso o que eu acho. É isso o que você aprontou.
Eu não aprontei nada, gato, fizeram isso comigo, e agora se correr o bicho me pega, se ficar, me comem. Uma puta não pega barato uma mala de dinheiro não, na inocência. E se eu entrego pras autoridades, o bando e a polícia me caçam adiante, e então com que grana eu vou fugir?
Você está certa, mas no fundo está gostando da situação.
Ei, professor! meu filho vai estudar, é isso que importa. Queria que você viesse comigo, sempre não me disse que eu te trouxe a alegria de volta...?
Começa mal, me chamando. O primeiro homem que puser do teu lado vai te levar o dinheiro. Você precisa entender que perdeu a família, seus amigos, sua profissão e a perspectiva de qualquer amor...
Nunca tive muito nada disso, minha mãe pode ser que perdi. No resto, puta não tem pai, amigo, marido, nada além de filho. Mas tem razão, gato, se homem nenhum nunca prestou, inda mais agora. Você é exceção, mas é de outro mundo. E tá me ajudando demais, se arriscou também, eu sei, que se esses dólares não valessem, te catavam no shopping... Pegue um tanto pra você, merece... Agora preciso decidir, pra onde eu vou? Talvez uma praia deserta...
– Continua mal. Desse jeito você não dura. Onde iria trocar os dólares? Na padaria? Lugar pequeno todo mundo sabe de tudo. Você tem de ir pra uma grande capital. Alugar um quarto modesto num lugar seguro, longe de cortiços. E trocar esses dólares muito aos poucos, o suficiente para viver. Deixe a escola boa do menino pra daqui uns anos. Se você fizer as coisas bem devagarinho, com a mesma paciência que tem comigo na cama, as coisas vão se encaixar, você vai aprender a viver outra vida, mas somente em silêncio... na maior lentidão baiana... Tem mais, querida: vai ter que inventar um personagem com um passado, seus amores, e a origem do seu dinheiro. Precisará ter respostas prontas pra enfrentar todas as situações, sobretudo aquelas que acontecem de repente, dentro de um elevador, por exemplo. E saber o que dirá pro seu filho, que ele vai crescer depressa. É muita coisa. Mas você é fantasiosa, será capaz de imaginar. A verdade é que o destino das ruas era pequeno pra você. Mas temo que este seja demasiado grande...
Eu sei o que vou fazer. Vou trabalhar de enfermeira, fiz isso aqui, quando cheguei – mas não rendia. Agora não preciso mais de grana, mas de um ofício...
Isso sim, agora sim. Vou te levar a Campinas, de você escolhe uma capital; não pode pegar ônibus aqui na rodoviária. Última coisa: não compre imóvel algum por muitos anos, que você vai se enrolar.
Agora me veio uma coisa... Você falou que os caras vão investigar no Rio Pequeno... Podem chegar no seu carro...
pensei nisso, não tem problema. Um Fiat Uno, prata... Por que alguém teria anotado a chapa? Não pega nada, não.
Você estava atrás de uma foda, e olhe o trabalho que dei.
Eu me resolvo... Se você for prudente, nunca mais nos veremos. eu sei o que estou perdendo.

Nenhum comentário: