Na Justiça
O Caso
No alto da serra de Bocaiúva , me deparo com um cara no acostamento fazendo estranhos sinais de socorro . Penso em parar o carro mas hesito, desconfiado , e sigo até um posto de gasolina logo ao pé da serra . Entro no movimentado restaurante e convoco o povo que se disponha a me acompanhar para averiguar o caso – e, se não for um assaltante, prestar ajuda . Num espírito de farra , doze me acompanham, quatro no meu carro , os demais na carroceria de um caminhão . Com os meus , combino uma maneira de abordar o sujeito , como se tivéssemos intenção de realmente acudi-lo. De volta ao local , o panorama é outro : o suspeito se prepara para entrar no carro de uma mulher visivelmente transtornada. Aproximo-me dizendo qualquer coisa do tipo algum problema ?, ele espia pra trás e se vê cercado . Responde não é nada não , paramos pra trocar pneu , o que configura toda a farsa . A mulher , sentindo que a ocasião favorecia, grita palavras agudas pelas quais se depreende que seu marido fora empurrado no abismo . Ato contínuo , dois agarram seus braços , um lhe aplica um soco , eu o revisto e retiro uma faca de seu bolso . A turma do caminhão chega , são imediatamente informados e correm para o precipício . O marido está vivo , preso em galhos , cerca de 30 metros abaixo do penhasco . A mobilização é completa ; dois pegam cordas no caminhão , eu digo para três marmanjos que cuidem do bandido e corro para acompanhar o resgate . A mulher continua soltando rugidos , desconsolada. Parecem profissionais : alguns sustentam um magrinho esperto que desce até o local , amarra com habilidade a vítima pelas costas e os dois são içados de volta . A ação não dura cinco minutos . O grupo festeja com vivas o abraço do marido alquebrado na mulher histérica . Agora é a hora da vingança . Querem lançar imediatamente o ladrão no abismo , todavia , de cima de uma pedra pênsil , onde a queda será irremediavelmente fatal . Não concordo; devemos chamar a polícia . Muita discussão , um esquentado me diz não encha o saco , se eu não quiser ir junto . A tensão aumenta porque respondo bravamente : então me joga , porra ! Por um triz não levo uma porrada , escapo usando o artifício de desviar a atenção , ao ordenar aos berros para o tal magrinho amordaça a boca daquele bosta , referindo-me ao bandido que não parava de gritar (ao agredi-lo assim repentinamente , demonstrei cumplicidade com o ódio de todos ). Aproveitam o ensejo para lhe dar uma surra . O marido chora e chuta o saco de pancada já caído , insistindo que o deixem empurrá-lo imediatamente , pro trouxa ver como é. Eu retruco, com meu português diferenciado: você foi salvo por minha iniciativa , agora se cale. Aquele mais bravo demanda que carreguem-no pra trás do caminhão , quer falar algo . Expõe seu plano , dirigindo-se a mim especialmente : que o cachorro irá despencar , mas amarrado numa corda , sem sabê-lo; a ideia é lhe dar um susto . Refuto que o tranco da queda poderá quebrar-lhe a coluna , o bravo perde a paciência e grita na minha cara : foda-se, o cão vai cair ! Seu comparsa sorri e fala ao meu ouvido : eu sei o nó , pode deixar . Fico quieto , ouvindo à distância os gritos do desesperado. O marido continua chorando, agora de dor ; está ferido, sua mulher , também aos prantos , roga para ir embora , mas ele insiste em ficar até o fim . Em pouco tempo , o palha é alvo de uma nova saraivada de chutes , enquanto aquele faz com maestria o discreto serviço de amarração. Arrastam aquele vulto que se estrebucha feito minhoca para a pedra abismal , alguns seguram as pernas , outros os braços , e dão início a um forte balanço sob o ritmo vocal um , dois , três e já ... O impulso o lança no vazio . Três homens aguentam o tranco . No meio da zoeira , espio ligeiramente a coisa girando no ar , ao som de gargalhadas . Então o soerguem a meia altura , para soltá-lo mais uma vez . Confiro novamente , o moço está vivo . Alçam-no enfim e tentam postá-lo em pé , mas suas pernas não resistem e ele se desmilingue no chão . Todos querem ver seu rosto , eu também ; parece um garoto , os olhos cerrados de medo e a boca , atravessada pela mordaça , murmura algo que , mesmo se estivesse livre , só emitiria um ruído ; restos de vômito escorrem no pescoço , e cocô numa perna . As risadas são amainadas pela comoção da sua imagem . Dilatam-se segundos de silêncio , enquanto um desamarra a corda que o enrola feito taturana – apenas as mãos são mantidas às costas . O marido sai com esta: viu, viu, canalha ...? Era o que precisava para o bando recobrar a agressividade. Erguendo-o, resolvem fazê-lo de João-bobo no topo do penhasco , entoando ooh cada vez que simulam lançá-lo. Agora vamos entregá-lo, sou eu tentando interromper o jogo . Novas discussões e ofensas contra mim . Pra que pressa ? E mais ooh! De repente , o coitado solta um uivo de todo irracional que ecoa dramaticamente nos paredões da serra . A turma queda espantada e seu corpo desanda a tremer . Parece que seu instinto conseguiu arrefecer o ânimo dos exaltados que agora sorriem nervosos em meio a piadas sem graça . O chefão se antecipa: então eu levo. Ata a corda no para-choque do seu caminhão com a intenção de arrastá-lo até a cidade . Isso me deixa passado , parto pra cima dele com o dedo em riste , mas emudeço ao receber um bruto solavanco . Restrinjo-me a encará-lo firmemente . O tal ainda se aproxima de mim , penso que chegou minha hora mas não , ele vem somente cochichar : eu vou devagar , devagarinho, mas ele vai ter que correr até a cidade . E acrescenta com pausada malevolência : o cão vai entrar em Bocaiúva como o diabo do bode , pra todo mundo ver o que acontece com um cabra dessa laia . Com a coragem que me sobra , intercedo para que se tome ao menos o cuidado de mantê-lo em pé durante a caminhada . No contrafluxo da cena , alguém ali que até então fizera papel de figurante põe uma garrafa d'água na boca do pobre que descontrolado vomita ao mesmo tempo em que engole voraz o líquido . O sol ainda bate forte e o lugarejo , apesar de distar coisa de um quilômetro , estará a léguas para as condições do infeliz . Partimos em comitiva , eu sozinho no meu carro – o condenado galopando para acompanhar o ritmo do caminhão , com as mãos agora livres , mas preso pela cintura . Como era de se esperar , perde o passo diversas vezes , esfola-se e queima-se no asfalto . Nessa hora penso em ir embora , mas me sinto de tal forma destroçado e confuso que não consigo me desvencilhar ; na verdade , temo que a sua vida dependa da minha presença . Os raros carros que cruzam conosco não param, de certo temerosos com o clima excitado da gangue que grita e batuca em cima da carroceria . Levamos uma eterna meia hora para alcançar uma ruela de terra que nos conduziria ao centro da cidade – aí o caminhão acelera o suficiente para fazê-lo desmaiar por todo trajeto . Defronte a um posto policial com dois guardas atônitos que aparecem para conferir a zoeira , um dos invocados desata o molambo que fica ali estendido no meio da rua , assistido pelos tantos que se aproximam. O marido chorão desce do seu carro pedindo um médico . A corja parte buzinando e repetindo palavras de ordem contra vagabundos . Eu vejo tudo discretamente desde uma esquina , sem desligar o motor do carro . O estado lamentável daquela figura impressiona os habitantes do povoado . Um preto o reconhece como morador de não sei onde , filho não sei de quem . O casal que não encontra ajuda médica é levado a Montes Claros , sessenta quilômetros ao norte , num jipe da prefeitura . Um oficial pede ajuda para recolher o dito cujo , no momento em que eu parto sem saber de mais nada .
A Justiça
Na audiência , quando tento repetir o mesmo que havia dito ao promotor , quanto a não ser acusado de nada etc. sou interrompido e admoestado pelo magistrado para me restringir à questão formulada: o que eu havia presenciado. Confirmo por alto a versão oficial : que o marido estava nervoso a ponto de pensar em atirar o rapaz no desfiladeiro , mas que fora impedido pelos demais , e que todos , no calor da hora , aplicaram uma surra no moleque para contê-lo e amarrá-lo. E que não achei correto conduzi-lo como um animal até o povoado , mas que também eu me recusara a levá-lo em meu carro , temendo incriminar-me inocentemente . Acrescento ainda – apesar de ter reprovado a atitude do grupo , repito – que o translado foi feito com razoável cuidado , mantendo suas mãos livres para que pudesse se equilibrar , que lhe deram inclusive o que beber para aplacar a sede , e que a velocidade da condução não ultrapassara o limite de sua capacidade de andar . Quanto o ter sido rastejado pelas ruas da cidade , digo apenas que já partira nessa hora (tinha certeza de que ninguém no povoado havia me visto ) e nada sabia. Após uma sabatina do promotor com dezenas de perguntas iguais para respostas parecidas, o juiz , ao encerrar , interroga-me o motivo de não havermos avisado a polícia . Respondo que esse foi certamente o maior equívoco do qual eu me sentia particularmente responsável , uma vez que a minha formação diferenciada fazia de mim , e mesmo em meio àquela confusão , aquele que tinha o dever de tomar tal iniciativa – mas que , simplesmente , sentia-me no momento desalentado, entre o calor e a tensão . (Essa autocrítica foi decisiva para o desfecho do caso .) Mesmo sabendo que fora enganado, o juiz , para desespero do promotor , dá seu parecer , termina a sessão e autoriza-me a sair da cidade . Enquanto ele e meu advogado enfrentam o turbilhão de repórteres pela porta principal , eu pulo a janela da sala , embaixo da qual me espera o delegado com o meu carro , e desse modo consigo escapar da multidão que se aglutina defronte ao fórum , tão imprevisível quanto pouco controlada pela guarda local .
O juiz havia encerrado o inquérito por falta de provas , a televisão esqueceu o assunto e o preso deixou barato .
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