Naqueles anos do velho primário , algumas vezes as crianças recebiam nacos de argila , eu sempre me aplicava na criação da mesma figura de cabeça redonda com braços e pernas estirados. Recordo-me do quanto me incomodava a fragilidade do barro que invariavelmente rachava e se desmilinguia ao secar . Pois então , pensava comigo , com minha cabecinha infantil : pra que fazer olhos , boca , nariz e orelhas num boneco que vai acabar ?
Aos dezesseis anos , trabalhei como contínuo na fábrica de vidros em que meu pai era operário . De lá , trouxe um dia para casa um pedaço de argila e modelei um menino maciço , com uns trinta centímetros de altura , cuja expressividade chamou a atenção do meu pai – que veio a falecer pouco depois , minha mãe no ano seguinte . Assim , aos dezoito, estava órfão . A turma da fábrica me ajudou, ensinaram-me o bê-á-bá do vidro e me colocaram para fazer as bolas para sopro . Eu era jeitoso e gostava de brincar com a cana no forno , e lembro de ter moldado no vidro uma pequena figura de homem cabisbaixo bastante elogiada pelos colegas , com a qual presenteei um namorado . Porém , desde lá , meu negócio não era o vidro mas o barro . Sempre que podia, levava mais um naco de terra pra casa , que sobrepunha àquela mesma imagem primeira do menino , de forma que , obviamente, a escultura crescia e engordava com o tempo .
Trabalhava todos os dias após o jantar , mesmo que o cansaço me permitisse apenas um retoque numa sobrancelha ou unha do pé . Mas em geral , ao contrário , dedicava-me muitas horas à obra , num esforço exaustivo , algumas vezes dedicado a uma região somente do corpo , outras reformulando inteira a figura à procura de uma expressão específica . Nessa primeira fase da vida mudava demasiado a peça , imprimia nela movimentos desnecessários, próprios da juventude ; ora ela andava a passo largo , ora voltava-se pra trás , ora exibia-se altiva , ora contorcia-se angustiada. Nem a sexualidade se definia; podia descambar num curto tempo de um feminino lânguido para uma masculinidade atlética; o olhar era cada dia um , do introspectivo ao pernóstico ao ingênuo ao contemplativo... enquanto a boca dizia outra coisa : tensão , sensualidade , suplício ... Os braços e, principalmente , as mãos : quantos gestos , quantas dúvidas ? Enfim , descrevo aqui poucos exemplos para que se pesem as inúmeras possibilidades e combinações por que passei na busca obsessiva de uma imagem desconhecida , sentindo a todo instante e durante toda a vida a iminência de encontrá-la. E reparem: restringi-me aos aspectos gestuais do meu homem , nenhuma palavra até aqui quanto ao estilo – esta luta , sim , meu labirinto infernal.
O estilo . Ainda quero preparar melhor a questão . Contar antes sobre um momento crucial no meu desenvolvimento como escultor , momento este que nunca cheguei a avaliar se me trouxe o bem ou mal , mas que certamente causou um considerável atraso da obra . Sou pobre , com formação pobre , passaria muito bem sem nenhum contato com conteúdos históricos-culturais. Fiz bem ? Foi pura curiosidade . E perdi a inocência . Ouvi propagandas de uma tal megaexposição num tal MASP de um tal Rodin e fui, quis ver , visitei-a por não sei quantos domingos , e decerto abriu minha cabeça como também travou meu coração . Pior : desde esse dia , nos finais de semana , acostumei a frequentar museus , igrejas , praças , galerias , onde quer que soubesse haver esculturas de bons ou maus artistas (nunca pude diferenciá-los satisfatoriamente). A cada experiência , retornava a meu quarto tomado por estranhos impulsos e remodelava minha imagem que se perdia cada vez mais . Era um caminho sem volta ; passei a frequentar bibliotecas municipais e a devorar livros de artes , a comprar fascículos do gênero em bancas de revistas . Ganhei um livro de Michelângelo de um namorado que trabalhava numa livraria . Justo Michelângelo... razão de estragos profundos no meu frágil ser de barro .
Nesse meio tempo havia definido ao menos a postura que viria a se manter inalterada até o final , exceto pela curvatura dos ombros adquirida com o passar dos tempos : um homem em pé , com o peso dividido entre as duas pernas (antes ele vivia a pender de um lado para o outro ), com os braços naturalmente soltos – mas não largados – e a cabeça inclinada para baixo , como olhasse o chão , mas não rente aos pés .
A expressão pode existir numa arte realista, estilizada ou abstrata – a questão não é essa; o problema do artista é encontrar o ponto entre o acúmulo e a escassez . No limiar prolixo , quando atingia uma fiel exatidão de realizações anatômicas – músculos , veias , rugas , cabelos , etc. –, em devida harmonia com o conteúdo evidente da obra (que não trata de um homem genérico , ideal , grego , mas de um homem , um único , comum , confuso, solitário , perdido, tímido – e esse homem é óbvio que sou eu , eu , eu !), bem , no momento em que alcançava essa perfeição figurativa, via a obra então empalidecer , morrer , virar estátua de cemitério . E a tentativa desesperada de lhe resgatar a alma através do acabamento sempre foi absolutamente vã; corrigir detalhes é o mesmo que maquiar cadáver – a obra morre assim que toma o caminho errado, para grande decepção do artista . (Apesar de ter passado a vida construindo e destruindo a escultura , cada vez foi doloroso , exaustivo , e pagava com a saúde ). Como reação à frustração , a tendência era partir para o contrário , a síntese : uma figura lisa , desprovida de artesanatos , de adornos , simplesmente essência , ainda que mantidas as relações e proporção . E novo abismo diante da frieza do resultado . Entre os extremos , o que colocar , o que retirar ? Meu Deus , passei o melhor da minha vida em busca da medida , sempre pecando para menos e mais .
Entendi na maturidade que o próprio princípio estava incompleto , ou mesmo equivocado; a verdade da obra exige uma deformação e uma desproporção . A questão – e já então eu me aproximava – é também quantitativa : quanto ? Alongo em dois centímetros os braços ? Diminuo a cabeça ? Elimino os olhos ? A conquista certamente é fruto de acertos e erros , eu sei, sabia, experimentei muito . Mas chegaria a um fim ? Ao tentar explicar aqui o sacrifício que a obra me exigiu, acabo distinguindo didaticamente as forças envolvidas, descrevendo o desenvolvimento consciente , compreendido anos mais tarde , em detrimento dos impulsos e acasos , os maiores responsáveis pelas descobertas ; pôr , retirar , alongar , definir , é claro que tudo vinha simultaneamente na criação . Ali no quarto . Minha vida num triângulo formado pela escultura , o espelho e o artista nu .
Se nasci para criar , não sabia o que fazer com minha criação depois de pronta . Pensava seriamente em morrer . Mas também não queria isso , apenas deixar de sofrer pela iminente deterioração da obra . Era esse o vivo dilema daqueles dias , quando levei num domingo um rapaz pra casa . Sempre tive satisfação em mostrar aos garotos o meu verdadeiro homem , foram eles o meu público . Bebi muito naquela noite , perdi a noção dos acontecimentos , não sei se o magoei, não entendi o motivo : o rapaz me passou uma navalhada , acordei amordaçado e sangrando, preso ao pé da minha obra . Acorrentado. A corrente atava minhas mãos às costas e dava voltas entre as pernas da figura – mais me mexesse, mais a machucava. Por quê ? Deve ter roubado ninharias , imaginei. Se eu tentasse sair dali, quebrava a escultura . E não se tratava de destruir as pernas , mas de desmilingui-la inteira . Derrubar o homem – podia? Como o rapaz pode conceber tal estratagema ? Minha barriga estava aberta , nem sei se teria força para arrebentar o barro .
Sonhava com o forno da fábrica , somente sonhava com o fogo , a luz e o calor do forno . Doía lento , queimava. Sempre o mesmo sonho : o fogo e a luz ofuscante dentro do forno .

Um comentário:
Que doído!
Me deu uma angústia física.
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