Quando eu nasci um chipanzé de chapéu entrou à noite no berçário e inclinou-se sobre meu corpo para me ver de perto. Não tive medo, pois ainda não conhecia a pele branca da minha mãe. Olhos nos olhos nos olhos nos olhos, quem ganhou fui eu; então ele sorriu e falou pra si: eis, ei-lo.
Aos seis ou sete anos, estava sozinho no porão de casa que servia de quarto para a mulata Zenaide, no momento em que o chipanzé de boné entrou à contraluz, enorme, monstruoso, e se sentou à minha frente. Fiquei paralisado, mas consegui dizer estou com medo. Ele sorriu:
– Deixa estar, o medo te acompanhará por muitos anos, não tenha medo. Quero te dizer por mera rabulice que ontem você estava certo – mas vai se esquecer. Sobrará apenas a intuição. Quer entender a si mesmo, terá que atravessar o deserto. Eu te trouxe um camelo. Não ligue para a tristeza do animal, ele é um meio, uma companhia, não tem significado em si.
– Por que ele é triste?
– Porque não bebe água, só pasta areia.
O que ele quis dizer por “certo”, e que de fato me esqueci por muitos e muitos anos, dizia respeito à experiência que tinha vivido precocemente no pequeno terraço de casa, ao olhar: as estrelas, o carro passando, a pomba no telhado da velha, a única rosa, meu tênis furado, palavras num caco de ladrilho que não sabia ler; e saber: que era hora do jantar, que eu existia, que os balões voavam em junho, que minhas irmãs haviam nascido, que meu pai ainda trabalhava, e mais, e sobretudo, a memória recente do vaivém das formigas pretas no muro do quintal, enfim, por tudo isso e não nessa ordem, provavelmente ao mesmo tempo, senti uma angústia e esperança: tudo está ligado, tudo, tudo.
(Em outro momento da minha infância completei a frase: tudo está ligado, tudo, difícil para as pessoas é conhecer a ligação.)
Nos anos que se seguiram, ora montava no camelo, ora ele montava em mim, mas na maior parte do tempo estávamos lado a lado, eu na minha, na minha confusão, ele na dele, bebendo o areão. Aos treze anos, caminhávamos sozinhos pela praia sobre a exata linha ondulada onde o mar se entrega. A liberdade de me sentir um homem adulto em meio ao poder da natureza me levou a um êxtase, no ápice do qual fiz um pacto comigo, tendo o meu camelo como testemunha: em breve (eu teria ainda muitos anos de vida) eu iria conhecer o conteúdo de toda a arte, ciência e religião. Não havia nenhuma vaidade nisso, ao contrário, achava o contrato natural. E as gaivotas me confirmavam. O projeto juvenil tinha a força da verdade, e de fato apenas a verdade acompanhou a minha vida; o projeto em si, como poderia, se lá, naquela praia e naquela idade, quem caminhava era um quase analfabeto que jamais tinha ouvido falar em arte, ciência e religião? Mas que ninguém duvide da pura verdade contida nesse pacto.
Debaixo de um sol ofuscante, pensei que acabara a travessia no instante em que conheci a cidade e meu camelo desapareceu sem deixar saudades. Não sei se interessa para este texto, mas achei, e achei até o fim, que tudo na cidade é falso. O deserto pelo menos era bonito. Além do que, adianto logo, precisei de muitos anos, décadas mesmo, para perceber que a cidade era somente a face mais terrível do deserto. Mas essa conclusão deveria vir no fim da estória.
Cheguei em Maués, Amazonas, ainda jovem, junto de um amigo, quando me aconteceu de tudo acabar. Ao menos, era o que pensava enquanto enlouquecia – tinha a certeza de não voltar. Na praia de rio deserta, a lua, ela mesma, desceu do céu para dizer que eu era um rato. Os galhos dos arbustos zombavam de mim e o rio me seduzia a entrar. Logo percebi que as forças da natureza haviam levado meu amigo para sempre. Saí da praia pra me apartar do rio; entrava aleatoriamente nas casas humildes, atravessava as salas de TV ligadas, as pessoas me acompanhavam mas eu não as via, estava agora na rua de terra olhando para a terra, e não havia presente nem futuro – perdidos. A própria palavra não significava, nenhum helicóptero mágico poderia resgatar minha alma. Quem me salvou? Meninos da minha idade puseram à minha frente a vida que ali retornava sob a forma concreta do meu amigo que julgava ter sido devorado pelo rio, como se me dissessem: você está enganado. E repentinamente tudo voltou ao lugar, e esse lugar era a praia selvagem de um rio esplêndido; eu não era um rato e a lua voltou para onde nunca devia ter saído. Não tinha mesmo sentido um fim tão prematuro. Trouxe comigo de lá, guardados bem no fundo, o engano e a loucura.
Mulheres, filhos, escadas, tijolos, doenças, livros, desejos, fracassos, frios, sonhos, orientalismos, cinemas, terapias, a morte do meu pai, mas antes disso, a pintura, antes da pintura, os milagres, esses pequenos milagres, milhares de milagres que ninguém vê ou via, somente eu. Achava graça as pessoas nada saberem sobre o motor da vida. Neguinho viaja de elefante e não enxerga o elefante! Falo isso, assim, mas eu também não via as coisas com clareza; o coração entendia, mas a cabeça dizia não. A vida é uma garota nua dançando na chuva sobre a lama do chão, e toca uma canção singela. É claro que ninguém a vê. Mas se alguém de olhos cerrados cata a menina, veste-a de babados e sapatilha e a solta no chão encerado de um palco... então todos a veneram. A arte é um pouco mais aquém da vida – eu fui um mau artista.
Usava a pintura para ouvir, a poesia para entender, a música para me transportar. Para pensar eu usava a contemplação e pra entrar em contato com meu destino eu sonhava. Para ser alguém eu tive filhos e amei as pessoas, não o povo, mas aqueles que estiveram próximos. Ideias somente me confundiram e atrasaram, tanto as minhas como as dos mestres. Sempre busquei a verdade ou algo que eu chamo de verdade, porque nunca acreditei na palavra, mas na coisa. Também adianto que não a encontrei. Mas procurar procurei, poderia reduzir minha vida, se for o caso, a essa procura. Milagres nunca me ajudaram nesse sentido, como de resto não me levaram a ter uma vantagem, nunca, não me deram força de ser, nunca, algumas vezes até me humilharam; serviam apenas como um espelho que refletisse por um instante o lado de lá. Certamente auxiliaram-me para constatar aquilo que já sabia mas duvidava e talvez até mesmo alguns deles tenham me protegido – mas isso é fé. No mais, passei a vida escorregando em abismos, caindo em labirintos, saindo de poços sem fundo – e isso é tudo.
Eu fazia as coisas certas e só levava pancadas. Não das pessoas, mas da vida. As pessoas, como num programa de auditório, apenas riam. Tentava explicar para elas alguns procedimentos ou intuições, mas não me ouviam. Sempre reclamei do mundo não me escutar, hoje acredito que era mal de retórica. Erro crasso: ansiava falar a coisa me esquecendo da intermediação das palavras. E punha demasiado sentimento em tudo o que comentava – o que alonga um discurso e o torna subjetivo. E será que realmente eu tinha alguma coisa para dizer que me distinguisse em minha época? Não. A multidão em regra está certa – por isso, minha enorme admiração pelo homem. Como se vê, eu tive inúmeras experiências místicas, a posse de uma profunda intuição, convivi naturalmente com milagres, mas nada me fez especial como ser humano. Certas idiossincrasias me afastaram de qualquer esperança profissional. Quando a idade diminuiu minhas energias, decidi encarar com serenidade o fracasso.
Preferi a solidão ou fui por ela escolhido. A segunda alternativa é a correta. Nunca escolhi nada, todo caminho que resolvi seguir por decisão própria resultou naquelas porradas. Apanhei muito, não conto não, seria monótono. Era um descampado sem fim que eu precisava percorrer, existia uma trilha, toda vez que desejava cortar caminho, ou mesmo apanhar uma flor logo ali, no meio do mato, apanhava, e tanto que a flor não valia a pena. Foi aí que me dei conta que o deserto continuava a ser percorrido. E que a travessia era predeterminada. Eu sei que o mundo não gosta desse determinismo, o destino de fato não se comporta assim – mas não o meu. Acostumei-me. Parei de sofrer o excessivo. Notei que, da minha trilha, podia falar com as plantas e passarinhos. E que um grilo cantando é melhor que uma glória falante. Minha cachorra confirmava-me o meu limite pelo fundo de seus olhos. Quando vinha a enchente, eu boiava; quando o sol escaldava, subia no camelo. Meu camelo voltara. No mais, já disse: o deserto era bonito e hoje acrescento: e puro.
Que sentido era esse que não me fez alguém, mas me resgatava toda vez que me reduzia a ninguém, mantendo-me na trilha? Os milagres não me queriam sábio nem um roedor barato. Nessa altura do caminho, a memória fora resgatada; faltava então a resposta para aquela primeira questão, compreender a ligação das coisas. Nada me ajudava – a menos que tudo me induzisse. Estava já em torno dos cinquenta anos. O sol se escondeu atrás dos eucaliptos, eu passeava no terreiro de um sítio de fim de semana, sozinho e angustiado. Pensava isto e aquilo, como sempre. Tentei tirar uma foto de um reflexo do céu num riacho, mas não havia luz suficiente. Olhei para as margaridas que balançavam no escuro. Só isso. Senti tudo.
É claro que não posso descrevê-lo, apenas digo que o fenômeno foi rápido e singelo. Voltei pra a casa, onde me esperavam para o jantar. Notei que passara a angústia. Entretanto, fui perceber a fundo o que havia transcorrido apenas nos dias conseguintes.
Faltava a confirmação; naquele sítio, naquele idílio, eu poderia simplesmente ter inventado mais uma das minhas. Madrugada abafada de verão, escrevia no meu quarto, quando um chipanzé nu e cru entrou no aposento e se sentou na minha velha poltrona. Reconheci o bicho. Tive medo, ele sorriu.
– Vim dizer que você está certo.
– E o que eu faço com isso?
– Você não precisa fazer nada com isso.
Ele estava alegre, parecia um palhaço. Numa pirueta, pulou da poltrona para o alto da prateleira, usou o teto para tomar impulso e mergulhou pela janela aberta. Desapareceu no escuro. Eu também estava feliz. Completara a travessia.
Depois do que conheci aquilo que se pode chamar de paz. Vivi os dias que devia viver e, graças a Deus, morri antes da minha mulher e dos meus filhos.
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