Cara a Cara
Você não largava do meu pé, sempre torrou meu saco com sua censura ao meu jeito, minhas idéias e escolhas, eu não podia, naquela época, curtir a vida sem que me viesse com seu discurso moralista, ponderado e cheio de bondades corretas. Preservei tua vida porque aquela senhora que temos em comum interveio – aquela que você chama de mãe chegou implorando misericórdia, imagine, usava a palavra misericórdia, eu lembro! E o pai saiu com aquela sentença básica: em nome do nosso passado... mas justamente em nome do nosso passado meu desejo era te ver pendurado na corda... Você, o educado, o sensível, o estudioso, o inteligente, cresci com esse oratório nos ouvidos, todo mundo se comparava conosco. Quando assumi o governo, precisava me livrar logo de você que desde o início, como esperado – aliás, desde antes do golpe – já me repreendia e me criticava por qualquer desvio – porra, e eram muitos...! Mamãe, papai, vovôs, titias contemporizadores, mandei todos à puta que pariu; não te matei, essa é a verdade, não foi por eles não, foi pra ver... eu te odiava o suficiente para não me satisfazer com a sua morte, queria você preso, perpetuamente preso, para o comprido cumprimento do castigo que todos os baluartes da verdade sensata merecem, você acima de qualquer outro. Considero uma honra ter expurgado ou extinguido todos os chatos com que tive o desprazer de topar na vida – tremeria de alegria na tumba se a história me reconhecesse esse feito; os chatos, mais que qualquer preso político. Minha intenção era oferecer ao primogênito todo o tempo de sua vida para que refletisse repetidamente sobre o que conquistou com teu senso de justiça, tua humildade, tua honradez.
Qual o teu legado, meu querido irmão? Grana nenhuma, é óbvio, nem poder, nem prestígio – mas eu sei que esses não são seus valores. Porém, deixou amigos verdadeiros? Tua filosofia deixou seguidores? No início da sua pena havia quem fizesse manifestações de solidariedade, alguns estudantes, queriam usá-lo de mártir e símbolo do meu autoritarismo, já que a nossa inimizade era pública e notória; mas bastou um apertãozinho, um chega-pra-lá, para que logo se dispersassem e te esquecessem – até porque você nunca teve a importância velada de que se investia. Então, pergunto, o que ganhou? Tenho gana de te esganar: o que ganhou, caralho? Pra que você serve? Aquela velha tediosa não conta, que mãe se herda, não se conquista – mas não deixo de louvar o amor que te dedicava, afinal morreu tísica com destino de seu único filho... Sua jovem esposa que tanto te compreendia e admirava... essa sim... e que por dois longos anos ainda te levava marmita na prisão... bela moça... gostosa... comi muito... você sabe, não é? Fiz questão de traçar – conquanto fosse de sua livre e espontânea vontade, nada de catar à força, ao menos nesse caso; fiz questão de que se entregasse apenas aos toques incoercíveis de sedução de que sempre fui mestre, não é? Olhe, me recordo perfeitamente, não foi difícil...E como desde então eu previa que um dia jogaria isso na tua cara, e que sua cara seria de incrédulo, tive a manha de memorizar por todos esses anos aquele sinal em sua virilha esquerda, lembra? nem lembra, acabado como está... É claro que se apagou também da minha memória (soube que teve um trágico fim), mas decorei que tinha uma pinta enorme na virilha, não lembra? Não? Acho que nem se lembra dela...
São as reviravoltas do destino, curiosas, irônicas; a mesma família que me humilhou na infância e te elevava virou fácil a casaca quando o golpe se consolidou, por mais irresponsáveis que tenham sido as minhas peripécias. Fora a velha, é claro, mas até o pai. Passei a ser admirado, inteligente, decidido, um estadista, imagine! – nada como o poder para ser amado. E a ti, coração, não te sobrou nada; amigos, esposa, família, nadinha... você perdeu os melhores anos da vida e morrerá sem ter tido um carro, um computador, uma TV LCD... – eu sei, eu sei, não são valores. Você nunca andou de avião, não conhece Nova York, Europa, Austrália, não sabe o que é comer num restaurante francês, cheirar um puro, correr uma maratona, assistir a Rolling Stones... você que não sabe sequer o que significa surfar... E olhe, meu caro, estou falando de prazeres comuns e acessíveis à maioria das pessoas, não te comparo com um privilegiado como eu que tive tudo, usufruí de tudo, gozei, gastei, vivi feliz cada dia da minha vida com a fartura que Deus me deu. Pra você e sua generosidade, Deus ofereceu quarenta anos num porão úmido com um par de camisa de nylon. Agora está livre. Livre pra quê?
Eu não fui o ditador que você supõe, o mau, o violento, o egoísta que quer que o povo se foda. Ditador talvez sim, mas gentil e sobretudo moderno. Ajudei muita gente, meu irmão, e, como você deve saber, o país se transformou no meu governo. O povo me amava. É verdade que não precisei fazer muito esforço, as coisas andam sempre pra frente independente das idiossincrasias políticas – é só não segurar o barco. A renda per capita... deixe pra lá: vá e veja com seus próprios olhos, você é livre, mas cuidado, não se assuste, o mundo é outro, tá tudo mudado, e pra melhor; as ruas asfaltadas, as cidades iluminadas, os pobres hoje comem em lanchonetes e padarias e viajam em ônibus confortáveis, todos têm acesso a escolas, a plano de saúde, a previdência... O comércio é outro (sua cabecinha não imagina); em toda esquina há bancas de revistas que mais parecem livrarias, você se atordoará com a quantidade de produtos nos supermercados (as velhas mercearias cresceram um bocadinho), o café agora se chama expresso, o pastel tem inúmeros recheios, vá, meu índio, mas vá devagarinho, tudo está informatizado e você nem sabe o que é isso, o país cresceu, o mundo diminuiu, somente o céu continua mais ou menos o mesmo, apesar do efeito estufa. E se não sou o responsável por tudo isso, pelo menos não atrapalhei. E os estúpidos traidores me depuseram. Tudo bem, já era hora, esperava por isso havia uma década. Um dia desses vão me matar. Piada!
Precisava encontrá-lo antes do fuzilamento, pedi que nos permitissem essa horinha, sozinhos, em pleno tribunal, você e eu, para uma última e revigorante troca de idéias. E você aceitou! Obrigado. É osso duro, tenho que te elogiar – não sei como sobreviveu. Se bobear, até gostou da prisão – eu enlouqueceria. Esse jovem júri de rebeldidades me condenou à morte, grande! Salvou este velho que terá um fim sucinto e não a extensa agonia de uma cela. Mas é que tudo deu certo na minha vida, até mesmo o meu fim. Seu aspecto está irreconhecível, mas o olhar complacente continua o mesmo. Se não estivesse algemado era capaz de te matar. Tenho raiva de pensar que você ainda vai viver, mesmo nesse estado... de morto vivo. E eu, um vivo morto. Não mudei muito, como você pode notar; sempre cuidei da saúde, o exercício, a alimentação e a alegria conservaram meu corpo assim até hoje. Isto aqui sobe quando quero. No próprio dia, antes da hora agá, vou dar uma bela gozada final em memória às minhas quatro mil mulheres. Que escrotidão, não é... fazer sexo com tantas mulheres... sem ter conhecido o amor verdadeiro, não é? Melhor está você que pode guardar a lembrança de relações tão humanas com os carcereiros... Vamos, dê a dica, como se tira o leite do pau numa cela quadrada...? Você não se lembra...
Queria comentar, aquele momento piegas, de fraqueza minha... disso você se recorda bem, foi na primeira década ainda, acho, ou na segunda; pensei que você pudesse ter mudado, se quisesse, se demonstrasse arrependimento, eu ia te tirar de lá. Lembra, não? Mandei um emissário investigar, você respondeu alguma coisa como está tudo bem, que eu não me preocupasse... Foi isso? Mais ou menos. Orgulhoso. Puto da vida, mandei que lhe tirassem a caneta e os papeis, e queimassem tudo o que você havia escrito... Fiz bem? Ao menos livrei o mundo de mais um escritor humanista que se gaba em dizer o que é falso e verdadeiro, e com metáforas poéticas... Eu não li uma linha daquele calhamaço, mas imagino exatamente o que seria...
Adeus irmão, o coronel me chama. Nosso tempo acabou. Nosso tempo é força de expressão, que o teu já se encerrou há muito e o meu expiará em breve. Não é assim na história? para quem vive o tempo acaba, para quem sobrevive o tempo nunca começa... Soube que está com um câncer adiantado, mas com ajuda de Deus haverá de gozar ainda uns dias de glória. Devem estar preparando umas festinhas por aí, com televisão e tudo – o povo tem grande fascínio por todos aqueles que sobreviveram aos meus porões. Por favor, em nome da grandeza desse momento, não acabe tudo com um eu te perdôo... e eu prometo não dizer o mesmo. É uma pena que matem um velho sadio como eu (mas não estou reclamando, está ótimo!), que viveria mais uma dúzia de anos bem vividos, e soltem alguém como você, que nunca soube o que fazer com a vida. Boa sorte. Adeus.
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